Neste mundo, nunca faltam trapaceiros. Alguns fingem ser ricos comerciantes, outros se passam por grandes eruditos, há ainda os que simulam ser mendigos. No entanto, raramente alguém ousa fingir ser o imperador. Em Xu Chang, há um imperador Han que foi trazido de volta por Cao Cao, mas em Ji Zhou existe igualmente um Liu Xie idêntico ao imperador Han em nome e aparência. Yuan Shao proclamou ao mundo que o imperador de Ji Zhou era o verdadeiro, enquanto o de Xu Chang fora substituído por um impostor a mando de Cao Cao. No início, Liu Xie aceitou assumir o papel desse imperador de nome, rosto e destino iguais ao seu apenas para garantir um prato de comida em meio ao caos. Porém, ao esvaziar gradativamente a fortaleza de Yuan Shao, ele percebeu que atravessar para este mundo não deveria se resumir à mera sobrevivência. Na véspera da Batalha de Guandu, Liu Xie sentou-se com altivez no trono imperial de Ji Zhou, fitando do alto Yuan Shao, amarrado com cordas de cânhamo. "Benchu, dize-me, achas que serei capaz de atravessar para a outra margem?" Yuan Shao respondeu: "Traidor vil, usurpador do ninho do tordo, roubaste-me a herança! Terás um fim trágico!" Liu Xie indagou: "Benchu, até agora não te dignaste a chamar-me de Vossa Majestade?" Yuan Shao lamentou: "Arrependo-me de ter dado ouvidos a Ju Shou, permitindo que fingisses ser o imperador e acabasses tomando minhas posses." Com expressão fria e severa, Liu Xie acenou e ordenou: "Transmitam meu decreto: o exército partirá. Nesta batalha, destruiremos o traidor Cao e capturaremos o falso imperador!"
Ano primeiro de Jian’an, outono de outubro.
Na província de Ji, fora da cidade de Ye.
Um jovem de roupas esfarrapadas, magro e de rosto amarelado, segurava uma vara de bambu afiada, descalço dentro do rio, com os olhos fixos num belo peixe carpa-azul que nadava nas águas. Seu olhar faminto quase faiscava de desejo.
Cuidadosamente, ele ajustou sua postura, apontando a ponta do bambu para o peixe, pronto para abatê-lo de um só golpe.
Mas, de repente, uma pedra voou em sua direção.
Com um estrondo, a pedra caiu na água, assustando o peixe que sumiu velozmente, desaparecendo em instantes.
— Meu peixe! Meu peixe!
Ao ver a presa escapar, o jovem ficou desesperado, pulando na tentativa de agarrá-la, mas acabou escorregando e caindo dentro do rio.
Depois de muito esforço, conseguiu rastejar até a margem. Ao levantar a cabeça, viu um grupo de crianças de cinco ou seis anos rindo dele às gargalhadas.
Estava claro que a pedra havia sido lançada por eles.
— Corram!
Ao notar o olhar furioso do jovem, as crianças dispersaram-se em debandada, cada uma fugindo para um lado, deixando-o sozinho à beira do rio, ensopado como um frango molhado.
— Crianças da aldeia do sul me maltratam por ser fraco e indefeso; como suportar que atirem pedras assim, ao acaso? Malditos pestinhas!
Observando os pequenos fujões, o jovem rangia os dentes de raiva, mas nada podia fazer. Soltou um longo suspiro e deixou-se cair de costas na relva.
Não era que não quisesse persegui-los, mas simplesmente não tinha forças.
Até e