Ano 1244 do Calendário do Reno. A cidade onde vivo é, aos olhos do mundo sobrenatural, considerada a mais insana e caótica de todas. A razão principal disso é a constante aparição de demônios, a presença mal-intencionada dos Alquimistas, devedores tentando quebrar seus contratos e, claro, aquelas entidades ocultas nas sombras, ávidas por roubar tua alma. Não há como negar, essa é a realidade, e mesmo assim, as pessoas continuam chegando aqui sem parar. Esta cidade sempre te oferece um fio de esperança, seja uma mentira, seja uma ilusão, mas sempre tão próxima, quase ao alcance da mão, a ponto de te fazer arriscar tudo. É uma cidade insana e desordenada, devorando tua vida a cada instante. E eu, por acaso, sou alguém que não pode morrer.
Sob o manto da noite, o interior da igreja resplandecia, iluminado por inúmeras velas que ardiam silenciosas. O calor derretia a cera, que escorria pelos degraus, solidificando-se ao tocar o chão. Quando a brisa da noite penetrava, a superfície ondulava como o mar sob o pôr do sol, cintilando em reflexos dourados.
No espaço exíguo do confessionário, Berlogo permanecia de cabeça baixa, sussurrando em voz quase inaudível.
— Padre, as almas dos bons vão para o paraíso, e as dos maus, para o inferno, não é assim?
Logo depois, uma voz dócil ressoou do outro lado.
— Naturalmente, meu filho.
Separados apenas por uma tênue cortina negra, ambos estavam envoltos em penumbra, e seus rostos eram indistintos, impossíveis de reconhecer.
— É mesmo? Que alívio... — Berlogo assentiu, sentindo-se como se um peso houvesse sido retirado de seus ombros. — Eu tinha uma amiga.
Ao mencioná-la, um sorriso breve e perdido surgiu em seus lábios, logo substituído por uma expressão fria.
— Não é do tipo de “amiga” que serve de desculpa, ela era real, minha única amiga, na verdade. Um ano atrás, ao sair da prisão, fiquei parado ao portão sem saber para onde ir. Então a vi, reconheci-a na hora, mesmo depois de tanto tempo.
Ela me levou para sua casa, cuidou de mim. Sempre foi de falar muito... E depois de velha, falava ainda mais, nunca parava de me repreender...
Berlogo deixou as palavras fluírem, divagando em recordações, enquanto o padre o escutava em silêncio atento.
— Se eu dormia sem coberta, ela reclamava. Se não tomava café da m